bêbe & cia

da experiência de trazer um bebê ao mundo

Deu 39 semanas e parecia que eu ainda estava grávida de 7 meses de tão tranquilo que tudo estava. O Benjamin estava previsto pra nascer dia 28 de março. Meus pais estavam vindo do Brasil especialmente pra ouvir o primeiro chorinho e me ajudar a trocar fraldas. Eu bem sem noção marquei a passagem deles para dia 22, só que tive a proeza de pegar um voo que durava 36 horas e eles tiveram que passar uma noite em Amsterdã e só foram chegar aqui dia 24. Jurei que se o parto começasse antes, eu ia virar de ponta cabeça pro bebê não nascer antes de eles chegarem.

Depois que completei 40 semanas de gestação a coisa meio que empacou. Cada dia parecia uma eternidade. Parecia que aquela pança me pertencia há muito tempo e Benjoca nem sinal de querer nascer. Parece que eu tinha me acostumado a andar meio desengonçada, a só vestir leggings e ir ao banheiro fazer xixi de 5 em 5 minutos, a dormir toda torta de lado. Queria muito que ele botasse o pé pra fora mas ao mesmo tempo eu entrava em pânico só com a ideia de pensar no parto que podia desembestar a qualquer hora. Cada dorzinha, pontada diferente que eu sentia já entrava em estado de alerta. Parece loucura mas me dava uma pontinha de felicidade quando sentia alguma fisgada porque eu sabia que a coisa poderia ter começado. Mas que nada. Consegui mostrar quase Estocolmo toda para os meus pais, as vezes rolava uma cãibra na virilha mas nada demais. A mala da maternidade já tava quase mofando. Quando completei 41 semanas de gestação (ninguém merece) já fui perdendo as esperanças de que a coisa ia ser parto normal. Fomos ver o preguiçoso pelo ultrassom pela última vez. Era quase impossível dizer o que era o que na telinha porque o coitado mal tinha espaço dentro da minha barriga mais. Parecia uma massa de pão disforme, só consegui identificar a espinha dele. Ok. Aí panz, depois disso comecei a sentir uma coliquinha fraca todos os dias sempre começando no mesmo horário, às 5:30 da manhã. Foi assim durante uns 4 dias. Se fosse no Brasil, ele já ia estar do lado de fora há mais de uma semana porque nenhum médico curte deixar passar de 41 semanas. E eu já estava quase completando 42 semanas, entrando no desespero.

Beleuza. Aí quinta de manhã acordei com as galinhas e com uma cólica do capeta, muito mais forte do que as que eu estava tendo. E as contrações sempre lá, firmes e fortes. Parece que a coisa tinha dado largada. Sofri quietinha por uma hora só pra ter certeza, aí quando vi que não melhorava foi a hora de dar um cutucão pra acordar o Alexander e fazer ele ligar lá no hospital pra ver se tinha vaga (aqui é assim, eles não reservam teu lugar. se o hospital tá cheio eles te mandam para outro). Pedi pra ele encher a banheira. Ele trouxe um estoque de barrinhas de cereais, água e meu telefone. Fiquei lá curtindo minha barriga ficar dura e tentar não pensar na cólica, e fazer a respiração que aprendi nas aulas de yoga. Aí parece que a coisa parou. Fiquei meio frustrada porque pensei que era o tal do alarme falso. Mas não era não. Fiquei assim o dia todo, numa montanha russa. Tentei ficar o mais tranqs possível. Fiz o doce que minha bisavó costumava fazer aos domingos: gelatina com creme de baunilha. Tirei um cochilo, tomei outro banho, sequei meu cabelo, chequei a tralhaiada pela milésima vez dentro da mala. Obviamente fiz isso tudo dando aquela paradinha básica pras contrações. Eu queria ir para ao hospital só quando tivesse meio caminho andado mas a gente nunca sabe muito bem quando é bem a hora. Chegou 7 da noite e a coisa foi ficando preta e foi assim até 11 horas quando não aguentei mais. Eu parecia uma panela de pressão quando vinha a dor da contração. Foi aí que marcamos que elas estavam vindo meio irregulares, meio que de 4 em 4 minutos. Entramos no batcarro e fomos para o Karolinska Sjukhuset (segura essa!). Esperei sentada na recepção uma meia hora até ser chamada pela barnmorska (a “obstetriz” daqui). Ainda bem que era uma hora em que as constrações pareciam ter dado uma trela. Elas ainda estavam irregulares e eu com o c* na mão de quererem me mandar de volta pra casa e esperar lá, até a coisa desembestar com mais força. Okey. Aí, meus camaradas, vão buscar a pipoca que é agora que começa a sessão de tortura! Fui para uma salinha, sentei na maca, já botaram aquela calcinha super sexy de hospital em mim e a barnmorska disse que ia ver quantos centímetros meu colo do útero tinha dilatado. Levei uma dedada fenomenal, mas essa barnmorska não tinha conseguido sentir quanto de dilatação eu tinha. Senti muito bem ela contornando a cabeça do bebê dentro de mim até chegar a cérvix. Ela tentou, tentou e nada. Saiu e voltou com uma loira que foi a assassina número 1 do dia. Ela botou o dedo dentro de mim que eu fui a lua e voltei. Achei estranho ela não ter saído com algum órgão meu nas mãos. Claro que depois dessa eu comecei a sangrar. Mas ela chegou pra botar ordem no barraco. Eu estava com 3 cm de dilatação, não iam me mandar de volta pra casa mas também me disseram que não sabiam se teriam vaga pra mim naquele hospital. Caso não tivesse, iam me mandar de ambulância para outro mais próximo da gente. Achei a ideia de andar de ambulância o máximo, só não curti muito a ideia de que eu ia ter as contrações em um lugar que se mexia. Eu não gostava nenhum pouco que me tocassem e que falassem enquanto elas vinham, mas eu ia conversando entre elas. Passou um bom tempo que fiquei naquela primeira salinha ouvindo o som dos batimentos cardíacos do Benji no aparelho, tendo as contrações e tentando me recuperar da maior dedada da minha vida. Aí voltou a barnmorska não assassina para dizer que eu ia ficar por lá mesmo e que já estavam preparando o palco para o grand finale. E de brinde ela me trouxe um daqueles andadores pra eu dar um rolê pelo hospital enquanto a coisa se desenrolava. A filha da princesa da Suécia nasceu lá. Aí tinha uma fotinha deles, uma carta e umas outras coisas bizarras nada amistosas (tipo, um fóceps, umas pinças, uma mala de barnmorska) em uma vitrine no corredor. Aí fomos para a sala de parto, tava todo mundo meio bêbado de sono já. Vieram as duas barnmorskas que iriam me acompanhar na jornada. Elas colocaram um cinto em volta da minha barriga com um aparelhinho que ficava conectado ao computador pra que a gente ouvisse o coração do benji. Elas me apresentaram o que viria a ser meu melhor amigo pelas próximas horas: o gás óxido nitroso! (em português o nome dele é sem graça, prefiro “laughing gas”) Quando a dor viesse com força eu botava a cara lá e respirava fundo. Ganhei a primeira picada na mão para ganhar glicose na veia. Minha mãe fez ninho na poltrona e o Alex se desbundou no puff do chão. A partir desse momento eu super vou perder noção de horários. Suponho que isso era umas 3 da manhã. Aproveitei pedir algo pra comer porque eu tava varada de fome e sabia que se me dessem anestesia não ia poder comer mais nada. Quando a barnmorska voltou com o lanche eu já tava varada de dor e já não conseguia mais falar quando me perguntaram se eu queria a epidurial. Eu me entupia no gás, começava berrando e ficava respirando ali até ficar muito trilouca. Respirar aquele gás é a mesma coisa quando a gente já tá muito bêbado, meio flutuando, sem muita certeza se vai vomitar dali a 5 minutinhos. Quando elas chegaram com aquela agulha bruta, só vi o Alexander saindo de fininho da sala porque ele tem pavor de agulhas. A sensação que tive quando começaram a me dar a epidurial foi como se tivessem me botado em um balde cheio de gelo no meio de um monte de cerveja. Foi mágico. A dor sumiu. Eu era outra pessoa, agora só sentia minha barriga ficar dura durante as contraçoes mas necas de dor. Foi engraçado porque até então eu só tinha falado em inglês com as barnmorskas e depois que levei a epidurial e elas vieram perguntar se eu tava bem, comecei a desenrolar meu sueco. “Olha! tô tão bem que tô até falando sueco!”. Meu filho, parir e falar sueco ao mesmo tempo não é mole não! E a coisa foi assim por muito tempo, o efeito da epidurial durava em média uma hora. Aí quando  via que a dor estava voltando,  eu apertava o botãozinho para elas voltarem a me dar mais daquela droga boa. Eu já tava muito dopada já, super fraca, sem poder comer nada. O dia amanheceu e nada. Eu só acompanhava pelo computador a força das minhas contrações. Eu não sei qual medida é usada para medi-las mas só sei que quando cheguei no hospital elas estavam por volta de 0-90 depois passaram de 0-150! Enquanto minha mãe e o Alexander estavam exaustos cada um pra um canto, eu gritava dentro do bagulhete do gás e implorava por mais drogas. Puta que pariu, porque bebês não nascem como um espirro? Um orgasmo? Sei lá! Depois disso tudo tá meio nebuloso na minha cabeça o desenrolar dos acontecimentos. Só sei que vieram estourar a tão famosa bolsa d’água. Aí já não bastasse tudo o que eu já estava passando, parecia que tinha uma enchente saindo de mim. Aí ganhei mais um brinde: um fraldão! Eu já tava só o pó, já era tarde de sexta feira e a coisa parecia não ter fim. Não parecia que eu estava lutando para ter um bebê. Eu estava sem dormir, sem comer, só com glicose na veia. Aí o Alex foi buscar sorvete pra mim, que era a única coisa que eu podia comer. Sorvete e sopa aguada. A coisa foi ficando cada vez mais preta. E nada do cenário mudar. Eu encontrei tantas barnmorskas trocando de turno que essas que vieram me dar a ocitocina já era a terceira dupla que vinha cuidar de mim. Uma das desvantagens da epidurial é que se você toma muito, ela pode diminuir as contrações, aí foi por isso que vieram me dar ocitocina, justamente para aumentá-las. Foi uma batalha infinita de me darem mais epidurial e ocitocina. Eu não aguentava mais. Eu tremia, aquele gás me deixava zonza. Vomitei até as tripas. Tiveram que esvaziar a minha bexiga com cateter. Eu já tava muito mais pra lá de Bagdá, quando a barnmorska número 29398 olhava entre minhas pernas quando ela anunciou que era hora de *empurrar*! Pediram pra eu largar o gás porque eu precisava estar 100% ali. Foi muito estranho porque eu já não sentia mais as contrações, então não sabia muito bem quando começar a fazer força. Só sei que a hora em que a barnmorska disse “ele tem cabelo preto!” e logo em seguida minha mãe “dá pra ver a cabeça! não para! vai! vai!” o Alexander dormia largado na poltrona. Eu tive que juntar fôlego pra pedir pra minha mãe ir dar um tapa pra ele acordar porque o filho dele estava nascendo! Me enganei quando pensei que a coisa não podia ficar pior que aquilo. Agora meu aliado era o computador, eu via quando uma contração vinha quando os números começavam a aumentar. Respirava o máximo de ar possível, segurava a respiração e empurrava a barriga. Coisa de louco. Não sei de onde surge toda essa força. Eu pedi muito durante toda a minha gestação pra que o Alexander não olhasse o “playground” enquanto eu tivesse parindo, mas de nada adiantou. Tava lá, minha mãe, alexander e as 2 barnmorskas, todas olhando para a atração do momento: o meio das minhas pernas. Vou ser bem sincera e um pouco escatológica, mas a mesma força que a gente faz para parir um bebê é a mesma usada quando a gente tá super constipada e a coisa não quer sair. Só que no meu caso eu tinha uma cabeça de bebê entalada entre as pernas. Ela não voltava e nem saia. Eu tava pirando já. E o efeito da epidurial estava passando, e daí ia ser tudo de novo: epidurial+ocitocina= infinitum. Porque passa um tempo e o efeito das coisas começa a falhar. Chegou uma hora que eu quis matar todo mundo. Todo mundo pedindo pra eu empurrar, e eu empurrando, quase explodindo as veias da minha testa. E nenhum progresso. Quando aparece mais uma barnmorska ali no meio me dando uma toalha. Era pra eu segurar como se fosse uma corda. Ela puxaria de um lado e eu do outro. Aquilo me ajudaria a empurrar mais o bebê pra fora. Ajudou um tico mas não muito. A gente não podia mais dar mole, o tempo já tinha passado demais. Eu não sabia pelo que implorar. Pensei como é que iriam fazer uma cesárea em mim com o bebê entalado.  “e se eu fizesse ele voltar pra dentro?”, no meio daquela loucura toda eu tentava pensar em alguma coisa. “e se me cortassem ao meio agora?” Eu queria me livrar daquilo mas não via solução, já não tinha mais força alguma quando apareceu a barnmorska assassina número 2. Ela veio com uma baita agulha e aplicou no centro das atenções: o meio das minhas pernas. E me fez um belo rasgo. A essa altura do campeonato “o que era um peido pra quem já tava cagado”, né? Depois disso foi meio que como uma luva, fiz umas forcinhas lá quando o Benji pulou pra fora. Foi uma sensação absurdamente estranha. Mas senti o maior alívio da minha vida para toda eternidade. Logo em seguida colocaram ele em cima de mim, e o Alexander veio do meu lado esquerdo e começou a chorar. Aí desembestei a chorar também mas entrei em pânico quando vi que o Benjamin não chorava. Aí ele voltou pra enfermeira, ela deu uns tapinhas na bunda dele e ele começou a dar um chorico. Aí chorei ainda mais. Mas aí eu vi que a cabeça dele tinha um formato muito estranho atrás. Parecia que ele tinha ficado com ela dentro de um pote de iogurte. Pensei “puts! agora a gente tá ferrado! ele tem algum problema na cabeça”. Aí até me esclarecem que isso era normal, demorou uma eternidade. Aí cortaram o cordão umbilical. (é bom deixar por um tempo até o sangue parar de passar porque aí o beibs tem mais oxigênação). E depois saiu a tão famosa placenta. Minha mãe disse que ela era muito bonita, que parecia uma Louis Vitton.

Benjamin nasceu com 3,6 kg às 18:43 do dia 11 de abril em uma sexta-feira. Posso dizer com certeza que fui ao inferno e voltei mas eu trouxe comigo a coisa mais rica e incrível da minha vida: meu baby (quem diria que um dia falaria um troço desses! até treme as pernas quando penso que agora sou mãe!).

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5 Comments

  • Reply
    freitasmh
    maio 2, 2014 at 7:30 am

    Eu sinto falta das suas postagens girl.
    Seu jeito irônico de escrever sobre as merdas que acontecem nessa terra perfeita.
    Você é guerreira guria, se parto fosse fácil não chamaria parto e o seu primeiro não foi como esses que constam na cartilha…
    Muita saúde e benção para você e o seu Ben!

  • Reply
    Juliana Kimsjö
    maio 2, 2014 at 8:23 am

    Ri muito!

  • Reply
    Alexsandra
    maio 2, 2014 at 10:33 am

    Eu ri na parte que você queria matar todo mundo, acho que essa deve ser uma dor horrível ao ponto de levar a pensamentos assassinos hahahhahaha!! Parabéns, ele é muito fofo *.*!!

  • Reply
    Marina Torrealba
    maio 6, 2014 at 4:13 am

    Pitolo, é ótimo poder acompanhar suas aventuras daqui da terra, ainda mais com essa narrativa! Parabéns a você e ao Alexander. Beijos

  • Reply
    Marivalda Yamasaki
    janeiro 20, 2015 at 10:59 pm

    Ahhhhhhh Q coisa mais rica! Não tinha lido da saga do Benji!!! Que delicia! Que lindo! Que dor do caraleo!

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