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gravidez

devaneios

Hi, pipol.

 

Tem tanta coisa que queria escrever sobre, dar tim tim por tim tim.. mas vamos lá dar uma prévia dos últimos acontecimentos:

  • vamos nos mudar para Estocolmo até o final do mês

Então o apartamento tá uma zona, tudo se transformando em caixas. E Alexander tá vendendo quase tudo no blocket. (blocket é tipo um OLX da vida, onde o povo vende de tudo, até a mãe). E daí que a gente não tem mais sofá desde ontem, nem cômoda, nem estantes de livros.. tá tipo *o* caos. E isso é só o começo, certo? Porque tem o começo (encaixotar, dar um fim nas coisas), meio (transportar as tralhas) e fim da mudança (explodir a bomba, ou seja, abrir as caixas). E a cada dia que se passa eu me sinto mais e mais grávida. E a ida de Gotemboring pra Stk leva em média 5 horas de carro. (mas com uma grávida junto, o tempo aumenta para 10 h, considerando que temos que parar a cada 20 minutos pra eu fazer um pipis.. mesmo que seja imaginário).

  • só faltam mais 5 semanas para o Benjamin nascer

Yey! É uma mistura de ansiedade louca, com felicidade, com cólicas e noites mal dormidas, dores nas costas intermináveis, roupas que não aguento mais usá-las (que quero fazer uma bela fogueira quando Benji nascer!), sono absurdo durante a tarde, chutes na costela, listas intermináveis de coisas para comprar.. e a maior novidade de todas: soluços! Sim, a coisa mais fofa do mundo! Sempre achei surreal a ideia de um bebê ficar te chutando dentro da sua barriga.. e agora descubro que eles também soluçam e que dá pra sentir isso! Incrédibol. E parece que eu tô grávida faz uma eternidade e saber que agora falta tão pouquinho.. que nem tinha caído a ficha. E o ninho ainda nem ficou pronto! E o povo daqui é tããããão sossegado com isso. Primeiro de tudo que eles só manifestam que estão esperando um bebê depois do 3°, 4° mês. (eu já abri a boca logo que soube pq queria apoio de todos os tipos). A maioria prefere não saber o sexo. E chá de bebê aqui não é nada comum. E aqui o que rola é parto normal (um pouco hard core mas acho super válido. e logo que der quero escrever mais como funciona o acompanhamento da gravidez aqui). E a ideia de o Benji ter um quarto todo bonitinho passa longe, porque a casa que vamos nos mudar tá lotada de coisas do papis do Alex, e ele só vai começar a liberar no verão.. ou seja, só em agosto? setembro.. ai, meu canivete!

E ah, Benjamin já quase tem o mesmo número de caixas do que eu! Tá 2×3!

 

  • SFI (curso de sueco para imigrantes)

Bom, desde que fui informada que o curso de sueco aqui na Zuézia era grátis achei ótimo. *Só que* é uma porcaria! Uma enrolação pura. E eu vi que não sou a única reclamona e vítima da parada. Eu tenho aula 4 vezes por semana, 4 horas por dia com um intervalo de 30 min. Eu comecei o curso em setembro do ano passado no nível C (vai do A ao D), e passei para o D logo que voltei do Brasil. Toda felizinha pensando que ia ter um professor melhor porque mudei de nível, que nada! Mudei da tarde para manhã e meu professor continuou o mesmo. E a aula dele é péssima! Ele demora zilhões de anos para escrever na lousa o que a gente vai fazer durante o dia, deixa um recadinho tosco lá do tipo “leia a lousa!”e dá no pé, só volta uma hora e meia depois.. aí o jeito é ficar traduzindo textos e tentando achar alguma maneira produtiva de aprender. Mas é foda! Pra quem não sabe, a Suécia acolheu um número significativo de refugiados. (uma coisa que gera muita discussão aqui de porque o governo faz isso, quais são as vantagens, obrigações, etc.. assunto para outro post). Enfim, o professor dá no pé e o povo fica falando em árabe super alto, enquanto quem quer estudar tenta se concentrar.. isso 8h, 9h da manhã. Sem contar que pra sair da cama é uma luta porque o sol agora só nasce depois das 8, aí dá aquela preguicite.. e ainda tem esse barrigão que dificulta tudo quando o assunto é ficar sentada por muito tempo. Aí vou pra aula e é essa zona. Sem contar que o livro que o professor me deu já está todo respondido e nem cd com audio de textos tem. A coisa é que a gente só vai pra aula assinar presença, o resto a gente aprende por conta própria! E eu tô pirando porque quero terminar esse curso chato logo antes do Benji vir, porque quando ele chegar vai rolar uma paralização das obras. E eu queria meu bônus de término! (que eles só vão liberar até 1 de julho, ou seja, cerveja). Enfim o curso é mais picareta do que coisa de feira do Paraguay.

  • agora o céu daqui só conhece um tom e ele é CINZA!

Xssus, como pode isso acontecer? Rá! Com um número infinito de cores e o céu insiste em ficar nesse cinza chato. Posso ser um pouco mais reclamona e apertar a ferida do povo que é falar do clima cagado daqui?!  Bom a neve foi embora (mas ela pode voltar, pelo menos fica tudo branquinho.. pelo menos no primeiro dia, antes de tudo começar a derreter e virar uma lamaceira só!). Os invernos daqui são loooooongos, escuros (dependendo da onde, o sol mal dá as caras), cinza e deprê! E ainda mais boring quando você tá uma baleia porque está grávida e não consegue se movimentar muito, ou seja, fazer atividades de inverno jamé! Sem contar na luta de botar no mínimo duas calças, cachecol te sufocando, jaqueta que pesa 10 kilos e sua barriguinha marota ameaçando cada vez mais a ficar de fora! (saudades do Brasil em que eu podia usar só os vestidinhos capa de botijão de gás!) Ok que a situação tá um pouco “melhor” depois que a barriga cresceu pra valer, agora debaixo de tanta roupa eu não pareço mais só gorda mas também grávida, obrigada. Voltando a falar do tempo, uma coisa que me enlouquece é que como tudo aqui na Suécia é meio padronizado, tudo acaba parecendo igual. Então é tipo, os predinhos estilo cohab, as casas amarelas/vermelhas, a Hm, a Ikea, o povo dirigindo Volvo e o céu cinza. Forever cinza. A mesma paisagem everywhere. Agora entendo porque o povo se mata tanto aqui 🙂

É isso aí. Hoje Suécia não é muito minha praia não.

Hej då

devaneios

esse negócio de gravidez

Ainda não caiu, totalmente, a ficha que vem vindo um pedacinho de gente que vai ser totalmente dependente de mim para viver.. Não, esse negócio de conexão mágica com o feijão que cresce dentro de você não surge de uma hora pra outra. É todo um processo, que no meu caso teve várias etapas. Eu mal respirei quando me mudei aqui pra Suécia e já engravidei logo depois de 2 semanas. A coisa é que foi totalmente não planejada. Eu interrompi o uso da minha pílula porque ela não estava mais sendo boa pra mim, e eu queria passar por uma consulta pra poder trocá-la por outra. Mas pra isso eu precisava do PS (o famoso personnummer) que ainda ia demorar pra ficar pronto.. e daí que nesse meio tempo eu recebi um *check in* inesperado! E eu nem me liguei que sentia um cansaço louco e que aquilo podia ser gravidez.. eu sempre fui muito dorminhoca, e como a gente estava viajando por Paris batendo perna o dia todo, nem me preocupei. Aí logo que a gente voltou de viagem, já com 5 semanas de atraso, eu resolvi comprar um teste de farmácia com o c* na mão e o Alexander com a maior tranquilidade de Buda. Como eu sentia meus peitcholas doloridos e tinha cólicas, pensei : *tá vindo!* Talvez viesse atrasada porque tinha parado com a pílula há pouco tempo.. e foram várias as manhãs em que o Alex olhou pra minha cara e perguntou: “e aí?” e eu respondi “nada. mas.. tá vindo! eu tô SENTINDO!”(usando a força do pensamento e unindo todas as forças do universo pra que isso fosse verdade) e nisso ele me dizia “eu acho que você tá super grávida!”. Daí que comprei o bendito teste de farmácia e fiz às 5 da manhã e quase tive um troço quando apareceram dois risquinhos. Assim, não pensei “tem um bebis se formando dentro de mim!”, pensei “to ferrada, agora é o meu que tá na reta!”.  Antes desse episódio, eu já tinha pensado em várias coisas metafísicas. Tipo, no infinito do universo, na existência de um deus, na morte da bezerra, mas nunca, nunca passou pela minha cabeça de cérebro de algodão se eu queria ter filhos um dia. Talvez eu não quisesse e fosse passar a vida toda sem filhos, se essa fosse minha escolha. Mas aí, já peguei o bonde andando e achei um pouco sacanagem pular. Os primeiros 3 meses não foram nem um pouco fáceis. Não me senti invadida por uma alegria maternal como muitas grávidas dizem por aí. Eu senti foi muito medo, insegurança, raiva, enjôos (a os enjôos, me fizeram pensar que eu poderia fazer dublê de “a exorcista”).. e o pior de tudo, solidão. Porque tô a 10 mil km longe de quem me dá segurança e tratar de um assunto delicado assim em chats ou em ligações pelo Skype não me pareceu lá muito satisfatório. O que eu sempre prezei foi pela minha liberdade, na ideia de que sempre quisesse fazer algo, nada me impedisse. Sei que o Alex vai tar do meu lado me dando apoio e tudo o que eu precisar para as coisas saírem bem. Ele vibrou com a notícia e me deu o abraço mais acolhedor do mundo. Já eu confesso que senti por um bom tempo um “parabéns” como se fosse “meus pêsames”. É meio tabu falar dessas coisas, de como a gente realmente se sente em relação a isso porque todo mundo espera que você se comporte igual as grávidas de capa de revista. Aqui a liberdade de escolha das mulheres é respeitada, então se tivesse optado por ter um aborto eu teria todo o apoio necessário – inclusive psicológico. Só por curiosidade: quem opta por não ter, antes que dê fim ao processo, a mulher tem um intervalo de 1 semana para repensar na decisão que ela tomou, se é isso mesmo que ela quer e não vai se arrepender depois. A gravidez pode ser interrompida até o 18o mês sem que você precise justificar o porque, depois disso só é liberado se o feto possuir algum problema, a mãe tiver alguma doença ou, raramente, por problemas sociais. Eu super sou a favor do aborto, PORÉM (antes que os conservadores machistas atirem tudo o que tiverem nas mãos em mim), sou contra a banalização do mesmo. E acho que apesar de muitos não apoiarem, que pelo menos houvesse respeito entre a diferença de opiniões e que o sistema pudesse permitir a liberdade de escolha (digo isso para o Brasil e outros países que ainda não legalizaram).
Eu não me sinto madura o suficiente para criar um filho, ainda não terminei meus estudos (ainda tô longe disso!) e não sei se meu psicológico tá pronto para isso. Eu sempre tive rodinhas nos pés e nunca fui de gostar de crianças. A ideia era começar com cachorros, e depois que tudo tivesse meio que sob controle, a gente começasse a digerir a ideia de ter filhos. Mas aí a cegonha fez um check in de emergência de última hora, pegou o hotel todo despreparado e agora a gente tenta arrumar a bagunça toda. Por mais que o campo esteja preparado pra ter um filho – tenho o cara que amo, a Suécia meio que adota o seu filho e te ajuda a criá-lo, apoio do governo para estudo e flexibilidade de horários – eu super me sinto andando em uma corda bamba em cima de uma piscina cheia de tubarões famintos. Eu não sei cuidar de plantas, as únicas que sempre me dei bem foram os cactos e eu sempre queimo o arroz. Mas parece que não é o fim do mundo e que existe vida pós-parto. Uma vida totalmente diferente, mas existe.
Bom, assim que o teste deu positivo a gente fez os procedimentos necessários aqui. Ligamos para o vårldcentral (tipo um centro de saúde) para agendar um horário. E aqui quem faz o pré natal é a barnmorska e não um ginecologista- a gente só encontra com um durante uma vez na gestação e depois só no dia do parto. A tradução mais livre para barnmorska é obstetriz. Eu achei estranho não terem feito teste de sangue em mim para confirmar a gravidez mas fui informada que os testes de farmácia são muito certeiros aqui. E o sangue que coletaram de mim foi usado para outros exames. Tudo lindo, corpitcho pronto para o descarrego. Só que na hora que a barnmorska me perguntou se eu consumia drogas, alcool e afins.. eu respondi que não, bebo socialmente, e drogas não uso nenhuma com frequência. Não, pera, mas acho que devia citar isso.. a gente meio que acabou de voltar de Amsterdã e … (o Alexander queria me matar nessa hora :)) comeu cogumelos mágicos  e sabe, né.. os coffes shops. Tipo, eu não sou de fazer isso, só curto uns bons drinks pra ficar alegrinha e quando faço isso pela primeira vez na vida, descubro que tem um brotinho crescendo dentro de mim. Mas eu achei necessário dizer porque fiquei muito na dúvida se aquilo podia prejudicar o feto, mãaaas, grazadeo, que como foi muito no começo e foram “poucas”vezes, as chances de algo dar errado eram mínimas. Mas o Alexander chutou meu pé pra me lembrar que se a gente fosse considerados narcóticos, assim que o bebis nascesse ia vir uma assistente social pegar o nosso bebê. Ainda bem que dessa vez a curiosidade não matou o gato. Eu me dei a chance de pensar no que ia fazer até a próxima consulta quando teríamos o primeiro ultrassom. Já tinha tomado a minha decisão, e ela tinha sido não ter. Mas quando a gente viu aquele fio de vida pulsando na tela, aquele pedacinho de vida se mexendo freneticamente, não teve como, eu me derreti, um cisco caiu no olho e as lágrimas desceram. É algo que não consigo explicar. Foi, tipo, todo aquele turbilhão de coisas negativas e contras que tinha pensado desapareceram em segundos. Mas foi aí que senti na pele que pra tudo a gente dá um jeito e que amor é uma coisa que não se explica.

Benjamin, com 11 semanas. (agora ele já tá com 20!)